Após ameaças e incêndio na UFPE, internautas relembram destruição da sede da UNE após golpe de 1964 e fazem comparação
Publicações nas redes sociais resgatam episódio histórico ocorrido no primeiro dia da ditadura militar e associam os dois casos pelo contexto de tensão política; ameaças e citação a Flávio Bolsonaro chegaram horas antes de início de fogo na universidade.
O incêndio de grandes proporções que atingiu, na noite desta quarta-feira (7), a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, provocou repercussão nas redes sociais e levou internautas a resgatarem um dos episódios mais simbólicos da repressão contra o movimento estudantil durante a ditadura militar brasileira: o incêndio da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), ocorrido em 1º de abril de 1964, logo após o golpe militar.
A comparação ganhou força diante do contexto político que antecedeu o incêndio na UFPE. Segundo relatos divulgados por estudantes e pelo deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE), alunos teriam recebido, horas antes do fogo, mensagens contendo ameaças contra setores da universidade, inclusive com referência à possibilidade de “explodir o departamento” em nome do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Nas redes sociais, usuários passaram a estabelecer uma relação simbólica entre os dois episódios. Uma das publicações apresenta fotografias dos dois incêndios e reproduz uma publicação do perfil Análise Política, que afirma:
“Sede da UNE é incendiada em 01/04/1964, após o golpe militar. UFPE é incendiada após estudantes apoiarem Lula, em 07/10/2026.”
A postagem conclui fazendo uma leitura política dos acontecimentos: “O fascismo foi derrotado naquele período e será novamente agora!”
Em outra publicação que circulou nas redes, um internauta chamou atenção para possíveis prejuízos à produção científica da universidade. Ao comentar o incêndio, escreveu:
“Simplesmente destruíram anos de pesquisas sobre autismo, TDAH, obesidade e COVID no incêndio da UFPE. dezenas de amostras e um trabalho incansável viraram cinzas.”
Na sequência, o usuário classificou o episódio politicamente e afirmou:
“É revoltante como o bolsonarismo é uma doença grave.”
A UFPE vinha sendo palco de manifestações estudantis, incluindo atos de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e mobilizações contrárias à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Ameaças antes do incêndio
A preocupação aumentou porque, segundo relatos reunidos pela imprensa, estudantes teriam recebido mensagens ameaçadoras direcionadas a setores da universidade antes do início do fogo.
O deputado federal eleito Jones Manoel também afirmou ter recebido informações sobre as mensagens e defendeu uma investigação pelas autoridades federais.
“Horas antes, alunos receberam mensagens com ameaças explícitas contra setores da UFPE, inclusive falando em ‘explodir o departamento’ em nome de Flávio Bolsonaro. A sequência dos fatos é gravíssima e precisa ser esclarecida com urgência”, afirmou.
Jones disse ainda que pretende solicitar à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal uma investigação diante da possibilidade de o incêndio ter origem criminosa.
Apesar da coincidência temporal, não há, até o momento, confirmação de que as ameaças tenham relação com o incêndio. A causa do fogo ainda precisa ser determinada pelas autoridades competentes.
A memória do incêndio da UNE
A comparação feita nas redes sociais remete a um episódio ocorrido no primeiro dia do golpe militar de 1964. A sede da UNE, no Rio de Janeiro, foi incendiada naquele contexto, em um dos primeiros ataques contra organizações ligadas ao movimento estudantil.
Nos anos seguintes, estudantes passaram a ser perseguidos, presos, torturados e mortos pela ditadura. A UNE tornou-se um dos símbolos da resistência estudantil ao regime.
Pesquisas podem ter sido destruídas
Além da dimensão política da repercussão, o incêndio provocou preocupação pelos possíveis danos à produção científica da UFPE.
Segundo Jones Manoel, o prédio atingido abrigava materiais e pesquisas relacionados a áreas como câncer, obesidade, Covid-19, TDAH e autismo. Projetos desenvolvidos por estudantes de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos também podem ter sido afetados.
O episódio ocorreu ainda em meio a outros dois incêndios registrados na UFPE em uma semana. Um laboratório do Departamento de Física foi atingido pelo fogo em 30 de setembro, enquanto outro incêndio ocorreu, em 5 de outubro, no laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências.