O alerta divulgado pela Prefeitura de Patos sobre a previsão de calor extremo para esta sexta-feira (6) e sábado (7) traz novamente para o centro das discussões uma realidade conhecida pelos moradores do Sertão: conviver com temperaturas elevadas. Mas, este ano, com a formação de um super El Niño e o avanço do aquecimento global, existe uma questão que precisa ser discutida para além dos números registrados nos termômetros: o fato de que nem todos têm as mesmas condições de enfrentar este cenário extremo.
A expressão “vulnerabilidade climática” é relativamente atual e vem para classificar a condição de pessoas, comunidades ou territórios que, por suas características sociais, econômicas, ambientais e estruturais, estão mais expostos aos efeitos das mudanças e dos eventos climáticos extremos e possuem menor capacidade de enfrentá-los. O fato é que o calor intenso, a seca ou as chuvas fortes não atingem todos da mesma maneira: populações de baixa renda, moradores de áreas com infraestrutura precária e trabalhadores expostos ao sol tendem a sofrer consequências mais severas. Portanto, a vulnerabilidade climática também é uma expressão da desigualdade social.
Em uma localidade onde as altas temperaturas fazem parte da rotina, o calor não é mais apenas uma questão climática. Também tornou-se uma questão social. Enquanto algumas famílias dispõem de ar-condicionado, residências bem ventiladas, veículos climatizados e condições financeiras para absorver o aumento da conta de energia, outras enfrentam o calor em casas pequenas, com pouca circulação de ar, telhados que acumulam temperatura e sem condições de investir em alternativas para amenizar o desconforto térmico.
A desigualdade também aparece nas ruas. Vendedores ambulantes, mototaxistas, garis, trabalhadores da construção civil, entregadores e tantas outras pessoas que dependem do trabalho ao ar livre não têm o privilégio de escolher quando sair de casa ou interromper suas atividades. Para muitos, enfrentar o sol não é uma opção, mas uma necessidade para garantir a sobrevivência.
E é nessa realidade que se faz necessário discutir a responsabilidade do poder público na construção de uma cidade mais preparada para as mudanças climáticas.
A Prefeitura de Patos tem anunciado nos últimos tempos, e, antes tarde do que nunca, iniciativas importantes de arborização, incluindo a criação de mini bosques em diferentes pontos da cidade e o plantio de mudas em praças e canteiros. São ações necessárias e que merecem continuidade. Entretanto, é preciso compreender que plantar árvores não significa, automaticamente, ampliar a cobertura vegetal e melhorar o conforto térmico da população.
Também precisamos discutir onde essas árvores estão sendo plantadas e quem será beneficiado por elas. A distribuição de áreas verdes não deve depender apenas da disponibilidade de espaços ou de intervenções pontuais. Bairros com pouca arborização, maior concentração de residências vulneráveis e escassez de espaços públicos adequados precisam receber atenção prioritária.
A sombra, em uma cidade como Patos, deveria ser entendida como parte da infraestrutura urbana, assim como a iluminação, a pavimentação e o saneamento. Não é apenas um elemento paisagístico ou um detalhe de embelezamento da cidade. É uma condição que interfere diretamente na saúde, no bem-estar e na qualidade de vida.Não é razoável que o cidadão precise atravessar longos trechos sob o sol forte porque não existem árvores ou áreas sombreadas suficientes. Tampouco que trabalhadores expostos diariamente às altas temperaturas não encontrem condições mínimas de proteção.
Patos precisa avançar na construção de uma política permanente de adaptação climática, com planejamento, metas de arborização, identificação das áreas mais vulneráveis, manutenção das árvores plantadas e investimentos em infraestrutura urbana que ajudem a reduzir os efeitos das altas temperaturas.
O alerta de calor extremo para este fim de semana é oportuno, mas não deveria representar apenas uma recomendação temporária de cuidados à população. Deve servir também como um chamado à reflexão sobre o futuro da cidade.
Afinal, as altas temperaturas atingem todo o município, mas suas consequências são muito mais pesadas para quem tem menos recursos para se proteger. Em Patos, o enfrentamento ao calor também é uma questão de promoção da igualdade.