“Cidade Amiga das Árvores”: Patos ganha selo ambiental, mas pouca sombra nas ruas conta outra história

Certificações reconhecem políticas no papel, mas calor intenso, falhas na arborização e problemas ambientais ainda marcam o cotidiano de quem vive e caminha pela cidade



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Patos conquistou, com mérito formal, títulos importantes na área ambiental. Está reconhecida como “Tree City of the World” e recebeu o selo de “Cidade Amiga das Árvores”. São certificações legítimas, fornecidas pela Arbor Day Foundation e a Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU), baseadas em critérios técnicos e institucionais. Isso precisa ser dito com clareza.

Mas também precisa ser dito o que todo patoense sente ao sair de casa: o calor extremo.

Quem caminha pelas ruas da cidade — principalmente nos horários mais duros do dia — sabe que a sombra ainda é exceção em muitos pontos. O sol bate forte, o asfalto irradia calor e a sensação térmica não combina com o discurso de cidade arborizada.

E esse não é um detalhe menor. Em regiões como o Sertão, arborização urbana não é apenas paisagismo. É qualidade de vida, saúde e até sobrevivência em dias mais extremos.

É verdade que Patos avançou. Há plantio de mudas, campanhas e políticas em andamento. Os títulos recebidos, inclusive, reconhecem isso: planejamento, estrutura administrativa e compromisso institucional formalizado.

Mas existe uma diferença importante entre ter política pública e fazer essa política funcionar plenamente.

As controvérsias envolvem a arborização urbana — justamente um dos pilares das certificações recebidas pelo município. Foram registradas inúmeras críticas à retirada de árvores em áreas urbanas, inclusive no centro da cidade. Em alguns casos, as intervenções foram classificadas por agentes públicos e observadores como potencialmente irregulares, com questionamentos sobre os critérios técnicos adotados.

Outro ponto considerado na questão ambiental em Patos se refere aos problemas no Rio Espinharas, que corta a cidade: Obstruções no leito, presença de vegetação que dificulta o fluxo da água e risco de alagamentos durante períodos chuvosos e a poluição. As reclamações não são recentes: registros semelhantes aparecem de forma contínua desde pelo menos 2021, indicando um problema persistente de manutenção e gestão da drenagem urbana.

Além disso, há relatos de intervenções consideradas irregulares no curso do rio, como barramentos que impactam diretamente comunidades rurais e agricultores. Especialistas apontam que esse tipo de prática compromete o equilíbrio hídrico e põe em evidência as fragilidades na governança dos recursos naturais.

A situação levou à realização de debates e seminários voltados à reabilitação do Rio Espinharas, o que indica o reconhecimento de que os problemas atingiram um nível estrutural.

Nada disso, por si só, anula os títulos. As certificações recebidas por Patos avaliam principalmente estrutura administrativa, planejamento e compromisso institucional. Ou seja, reconhecem que o município tem políticas e iniciativas na área ambiental.

Mas quem anda a pé pela cidade avalia outra coisa: sombra, conforto térmico e qualidade real do espaço urbano.

E é nesse ponto que a conta ainda não fecha.

Porque, no fim das contas, não é o selo que refresca a cidade. É a sombra.

Patos ainda precisa transformar validação em resultado visível e cotidiano. Precisa de árvores maiores, melhor distribuídas, com planejamento que leve em conta o clima real da cidade — e não apenas metas formais.

O desafio não é ganhar mais títulos. É fazer com que eles façam sentido para quem vive aqui.

Wanessa Meira – Polêmica Patos