Causa indignação e mesmo desconforto ver uma mulher, médica, com reconhecimento e prestígio social em Patos, posar para uma fotografia usando um boné com a frase “Make Janja quenga again”. Não se trata de exigir que a ex-primeira dama de Patos concorde com o governo Lula, simpatize com a primeira-dama do Brasil ou mesmo abra mão de suas convicções políticas. O direito à crítica é inegociável. O que merece ser questionado, e, com firmeza, é a escolha de transformar a desqualificação de outra mulher em manifestação política.
A frase, inspirada no slogan de Donald Trump, “Make America Great Again”, utiliza uma expressão vulgar para atacar Rosângela da Silva, a Janja, esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No contexto apresentado, a mensagem sugere que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro devolveria à primeira-dama uma condição anterior associada à prostituição, assim como é a interpretação de “tornar a América grande novamente”. No entanto, no caso da infame mensagem do boné usado pela médica, trata-se de uma construção ofensiva que recorre à sexualidade feminina como instrumento de humilhação. E isso diz muito sobre o tipo de discurso que se pretende normalizar no debate público.
Desde quando a suposta defesa de valores políticos precisa passar pela degradação moral de uma mulher? Desde quando discordar de uma figura pública autoriza alguém a recorrer a termos que, historicamente, são usados para constranger e diminuir mulheres? E por que a sexualidade feminina continua sendo tratada como uma arma para atacar a reputação de alguém?
Janja é socióloga, formada pela Universidade Federal do Paraná, com especialização em História e MBA em Gestão Social e Sustentabilidade. Trabalhou na administração pública de Curitiba, na Itaipu Binacional, por cerca de 15 anos, e também na Eletrobras. Sua trajetória profissional não a torna imune a críticas, já que nenhuma pessoa pública está acima do questionamento. Mas também não deveria ser necessário destacar diplomas e empregos para defender sua dignidade. Mesmo que Janja não tivesse formação acadêmica ou carreira profissional, ela continuaria naturalmente merecendo respeito.
Esse é justamente o ponto: uma mulher não precisa provar que é instruída, bem-sucedida ou socialmente respeitada para não ser tratada como objeto de escárnio. A dignidade não é um prêmio concedido às mulheres que correspondem às expectativas de determinado grupo. É um direito.
O problema da expressão utilizada no boné vai além de uma ofensa dirigida a Janja. Está na ideia de que chamar uma mulher de “quenga” pode ser uma forma aceitável de atacar uma mulher por razões políticas.
A crítica política pode ser contundente, irônica, ácida e até implacável. Pode questionar decisões, cobrar resultados, apontar contradições e denunciar erros. O que não se pode fazer é fingir que todo insulto se transforma em liberdade de expressão apenas porque foi colocado a serviço de uma preferência eleitoral.
A liberdade de expressão protege o direito de manifestar opiniões, mas não transforma toda manifestação em algo digno, responsável ou imune à crítica.
Ainda é preciso observar uma contradição que incomoda: O fato de que esse discurso foi ostentado por uma mulher. Mas, não incomoda porque mulheres sejam obrigadas a defender umas às outras em todas as circunstâncias, nem porque uma mulher esteja proibida de fazer críticas a outra. Mas porque a experiência histórica do machismo deveria nos tornar especialmente atentas às formas pelas quais a linguagem é frequentemente utilizada para diminuir mulheres, restringir sua participação pública e submetê-las a julgamentos que raramente são aplicados com a mesma intensidade aos homens.
O machismo não desaparece quando é reproduzido por uma mulher. A misoginia não deixa de existir porque aparece em uma fotografia sorridente, em um acessório de moda ou em uma provocação eleitoral. E o preconceito não se torna menos nocivo porque quem o divulga tem prestígio, profissão respeitada ou milhares de pessoas acompanhando suas redes sociais.
Uma mulher pode discordar de Janja. Pode rejeitar suas posições políticas, criticar suas declarações e contestar sua atuação como primeira-dama. O que não faz sentido é transformar uma ofensa sexualizada em símbolo de superioridade política. Isso não fortalece um argumento. Pelo contrário: O que fica evidente é a pobreza intelectual de quem, em vez de confrontar ideias, procura constranger a pessoa que está do lado oposto.
Também é necessário reconhecer o peso da exposição pública. Ao publicar uma fotografia com uma mensagem dessa natureza, a ex-primeira dama patoense não está apenas expressando uma opinião em ambiente privado. Está escolhendo divulgar e dar visibilidade a uma frase que associa a humilhação de uma mulher à disputa eleitoral. A publicação, portanto, está sujeita ao escrutínio público e a crítica à escolha feita é tão legítima quanto o direito de fazê-la. É preciso o entendimento de que a influência social também carrega responsabilidade.
Restam ainda algumas perguntas que não pode ser ignoradas: se uma mulher pode ser publicamente reduzida a um insulto sexual por causa de suas posições políticas, que mensagem esse comportamento transmite às meninas e às jovens que acompanham o debate público? Que mulheres só merecem respeito quando estão do lado certo da disputa? Que a dignidade feminina pode ser suspensa quando o alvo pertence ao campo político adversário?
Nenhuma disputa eleitoral deveria servir de licença para transformar a humilhação feminina em entretenimento político.
É justamente contra esses atos que precisamos, como mulheres, nos posicionar.
Não considero minha indignação, neste caso, um exagero e nem uma tentativa de censura. É, de fato, a recusa em tratar como normal aquilo que não deveria ser normalizado porque, quando a política precisa recorrer à desumanização de uma mulher para tentar vencer uma disputa, não é apenas a mulher atacada que sai diminuída. É o próprio debate público que perde qualidade, humanidade e dignidade.
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