Há poucos meses, Patos, no Sertão da Paraíba, enfrentava um cenário que infelizmente já faz parte da memória coletiva do semiárido: reservatórios em níveis críticos e a necessidade de racionamento de água. Em novembro de 2025, a Companhia de Águas e Esgotos da Paraíba (Cagepa) anunciou a suspensão do abastecimento por dois dias da semana em sistema de rodízio nos bairros da cidade, diante do baixo volume da Barragem da Farinha, principal responsável pelo abastecimento do município.
Naquele momento, o reservatório operava em situação alarmante, com cerca de 2% da sua capacidade. A estiagem prolongada reacendeu discussões sobre consumo consciente, fiscalização do desperdício e aplicação da legislação municipal que proíbe o uso exagerado de água para atividades como lavagem de calçadas e veículos. Como sempre ocorre nesses períodos de escassez, o tema da gestão da água voltou ao centro das preocupações da população.
Três meses depois, o cenário mudou drasticamente. Após chuvas intensas registradas no final de fevereiro e início de março, a Barragem da Farinha passou de aproximadamente 2% para mais de 57% da sua capacidade em apenas dois dias, segundo dados da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa). Somente em 48 horas foram registrados 139,4 milímetros de chuva no município.
A mudança rápida no volume do reservatório reacende uma reflexão importante: em regiões como o Sertão paraibano, a crise hídrica não desaparece apenas porque choveu forte por alguns dias. O semiárido vive, historicamente, entre extremos: períodos de estiagem prolongada seguidos por eventos intensos de chuva. Ainda assim, a forma como lidamos com esses ciclos continua sendo marcada por uma memória perigosamente curta.
Quando a água falta, o debate surge com força. Fala-se em racionamento, em desperdício, em responsabilidade coletiva. Mas basta os reservatórios se recuperarem para que, pouco a pouco, o assunto volte a desaparecer das conversas cotidianas. É quase como se a abundância momentânea criasse a sensação de que o problema foi resolvido quando, na verdade, ele apenas entrou em pausa.
Como pesquisadora na área ambiental, observo que esse comportamento social também reflete um desafio na implementação de políticas públicas efetivas de gestão hídrica. A legislação brasileira de recursos hídricos já prevê instrumentos importantes para garantir o uso racional e o equilíbrio entre disponibilidade e consumo. No entanto, tais instrumentos só produzem resultados consistentes quando são pensados para além dos momentos de crise.
Em Patos, por exemplo, a rápida recuperação da Barragem da Farinha deveria servir não apenas como motivo de alívio, mas como oportunidade para discutir planejamento hídrico de longo prazo: ampliação de mecanismos de captação e armazenamento de água da chuva, políticas de uso racional, educação ambiental e fortalecimento da gestão integrada dos recursos hídricos.
Outro dado que merece atenção é que, mesmo com a recuperação do reservatório da cidade, o quadro hídrico estadual ainda é preocupante. Dados da Aesa indicam que cerca de 100 dos 136 açudes monitorados na Paraíba continuam em situação de atenção ou crítica, com volume inferior a 50% da capacidade total.
Por isso, talvez o maior desafio do semiárido não seja apenas enfrentar a seca, mas aprender a lidar com os períodos de abundância de forma estratégica. Afinal, no Sertão, a chuva é sempre celebrada e com razão. O problema é quando ela também acaba levando embora a preocupação com a próxima estiagem.
Ellen Nunes é bacharel em direito pela UFPB
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