O colapso do mito da invencibilidade de Israel

A atual conjuntura no Oriente Médio não pode ser compreendida como uma mera escalada militar ou uma sequência de confrontos isolados. Trata-se de um momento de inflexão histórica, no qual […]



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A atual conjuntura no Oriente Médio não pode ser compreendida como uma mera escalada militar ou uma sequência de confrontos isolados. Trata-se de um momento de inflexão histórica, no qual se evidencia o esgotamento de um modelo de dominação regional sustentado pela supremacia militar de Israel e pelo respaldo estratégico dos Estados Unidos.

Durante décadas, o regime sionista operou sob a premissa de sua invencibilidade. Esse pressuposto não apenas estruturou sua doutrina militar, mas também garantiu sua posição privilegiada no sistema internacional, permitindo-lhe atuar com ampla margem de impunidade diante de reiteradas violações do direito internacional.

No entanto, essa invencibilidade sempre foi menos um fato objetivo e mais um instrumento político, que se sustentou sobre três pilares fundamentais: a assimetria militar em relação aos seus adversários imediatos, o apoio irrestrito das potências ocidentais, em especial dos EUA, e a construção de uma narrativa internacional que legitimava suas ações como defensivas.

Os acontecimentos recentes demonstram que esses três pilares estão, simultaneamente, em processo de erosão.

Na Faixa de Gaza, após um prolongado ciclo de operações marcado por níveis extremos de destruição e genocídio de palestinos, Israel não foi capaz de alcançar seus objetivos estratégicos. A resistência palestina, longe de ser eliminada, manteve-se como ator político e militar relevante.

Esse impasse evidencia uma contradição estrutural: a incapacidade de um projeto de dominação colonial de converter superioridade militar em controle político estável.

No norte dos territórios palestinos ocupados, a consolidação da capacidade dissuasória do Hezbollah impõe limites concretos à ação militar israelense. No Iêmen, forças alinhadas ao campo da resistência demonstram capacidade de interferir em dinâmicas estratégicas globais, ampliando os custos do conflito para o eixo ocidental.

Esse conjunto de fatores revela uma transformação qualitativa no ambiente regional, no qual Israel já não opera em um espaço de superioridade incontestada, mas em um cenário de crescente contenção e desgaste.

O elemento decisivo dessa mudança reside, contudo, no confronto com o Irã.

A resposta iraniana às agressões de Israel e dos EUA representa um ponto de inflexão ao introduzir um novo padrão de dissuasão regional. Ao demonstrar capacidade de atingir alvos estratégicos e de impor custos reais, Teerã rompe com a lógica que, por décadas, sustentou a liberdade de ação israelense.

Essa ruptura tem implicações estruturais. A possibilidade de conduzir operações ofensivas sem sofrer retaliações proporcionais, um dos fundamentos da estratégia israelense, torna-se insustentável.

Dessa forma, o eixo da resistência deixa de operar apenas como força reativa e passa a constituir um polo ativo de equilíbrio estratégico.

Paralelamente, observa-se um processo de desgaste da capacidade dos EUA de sustentar sua posição hegemônica na região. Embora o apoio a Israel permaneça central, ele já não é suficiente para garantir estabilidade nem para conter a crescente capacidade de resposta de atores regionais.

A exposição de bases militares norte-americanas, a ampliação dos custos do engajamento regional e o questionamento crescente de sua legitimidade política indicam limites cada vez mais evidentes ao poder de projeção dos EUA.

Esse processo sugere não apenas uma crise conjuntural, mas uma reconfiguração mais ampla da ordem internacional no Oriente Médio. A transformação em curso não se restringe ao plano militar. Ela é acompanhada por uma erosão significativa da legitimidade internacional de Israel.

As operações em Gaza intensificaram denúncias de violações graves do direito internacional humanitário, contribuindo para uma mudança perceptível na opinião pública global. Mobilizações sociais, campanhas de boicote e o avanço do reconhecimento internacional da Palestina indicam uma inflexão na narrativa dominante.

Nesse contexto, a questão palestina reafirma-se não como um conflito entre partes equivalentes, mas como uma luta de libertação nacional frente a um regime de ocupação e colonização.

As derrotas acumuladas por Israel e pelos EUA, em Gaza, no Líbano, no Iêmen e, de forma decisiva, no confronto com o Irã, devem ser compreendidas como manifestações de um processo mais profundo, de esgotamento de um modelo de dominação baseado na supremacia militar e na intervenção externa.

O chamado Eixo da Resistência emerge, nesse contexto, não apenas como um conjunto de atores reativos, mas como um polo estratégico em ascensão, capaz de redefinir a correlação de forças na região.

Essa transformação aponta para a constituição de um novo arranjo geopolítico no Oriente Médio, no qual a capacidade de impor custos ao eixo dominante altera os parâmetros tradicionais de poder.

O “mito da invencibilidade” de Israel não era apenas uma narrativa simbólica, mas um elemento estruturante de sua estratégia política e militar. Sua erosão não implica o colapso imediato do poder israelense, mas sinaliza a entrada em uma fase de crise estrutural, na qual as bases que sustentavam sua hegemonia deixam de operar com a mesma eficácia.

No caso do Oriente Médio, o que se delineia é a transição de uma ordem regional centrada na dominação externa para uma configuração na qual atores historicamente marginalizados assumem papel central na definição dos rumos políticos e estratégicos da região. Mais do que o fim de um mito, trata-se do início de um novo paradigma.

(*) Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2. Ed. Anita Garibaldi/Ibraspal, 2022).

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