O balanço vazio de uma criança palestina pesa mais do que toneladas de escombros. Ele carrega a ausência. A ausência de risos, de futuro, de uma vida que poderia ter sido. É esse o retrato mais cruel da guerra promovida por Israel sob a lógica sionista que, há décadas, se sustenta na limpeza étnica e no apagamento sistemático de um povo. Uma política que, diante dos olhos do mundo, transforma meninos e meninas em números, corpos em estatística, famílias em ruínas, enquanto a civilização ocidental, tão orgulhosa de seus valores “humanitários”, segue imperturbável em sua comodidade capitalista.
Vivemos a era em que o genocídio é transmitido ao vivo. A cada rolagem de tela, uma infância se perde sob a poeira. E ainda assim, o mundo segue comprando, consumindo, produzindo, sorrindo para selfies natalinas. A engrenagem do capital não para. Nunca para. Talvez porque parar significaria admitir a própria barbárie: reconhecer que a normalidade do Ocidente se sustenta no silêncio diante da morte de crianças do outro lado do Mediterrâneo. Talvez porque a Palestina não se encaixa na estética higienizada da esperança vendida em embalagens vermelhas e douradas nesta época do ano.
E então chega dezembro. As cidades brilham, as vitrines anunciam milagres de ocasião, e todos repetem que “o Natal é o tempo de celebrar o nascimento de Jesus”. Mas é impossível ignorar a ironia histórica: Jesus nasceu na Palestina. Na terra hoje sitiada, bombardeada, esvaziada de futuro. Se nascesse agora, em pleno cerco, não haveria manjedoura. Haveria um abrigo subterrâneo, abafado pela fumaça, tremendo a cada detonação. Maria não encontraria hospedaria, encontraria checkpoints. José não seria um carpinteiro, seria um deslocado, um refugiado. E o recém-nascido talvez sequer sobrevivesse aos primeiros dias, como tantos bebês palestinos que têm suas incubadoras desligadas quando falta energia ou uma bomba cai sobre um hospital.
É nesse contraste brutal que o Natal se revela não como festa, mas como acusação. O Ocidente comemora o aniversário de um menino palestino ao mesmo tempo em que se cala diante da matança de milhares de outros. Um menino que cresceu para falar sobre justiça e amor aos oprimidos, e que hoje, certamente, estaria entre os escombros, carregado por pais desesperados, ou envolto em um lençol branco em algum hospital destruído. Ninguém teria tempo para seguir uma estrela pois no céu, a única coisa a se observar com atenção seria o drone e sua arma letal.
E nós, espectadores? Assistimos. Compartilhamos. Às vezes choramos. Mas seguimos. Enquanto isso, cada balanço vazio em Gaza lembra que a infância não é apenas interrompida: é arrancada, negada, proibida. E negar a infância é negar a própria ideia de humanidade.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido desta imagem simples: um balanço, uma bandeira. Para mostrar que, onde deveria haver vida, sobra apenas resistência. E nos lembrar que, se o Natal significa algo, deveria ser o compromisso de não celebrar enquanto tantas crianças são impedidas de viver.
Porque, enquanto o Ocidente troca presentes, na Palestina suprime-se vidas. E não há estrela no céu que brilhe o suficiente para encobrir essa verdade.
Wanessa Meira