Foi na manhã desta terça-feira, em Itaporanga, que o desfecho de uma tragédia familiar deu lugar a outro tipo de horror — mais sutil, porém igualmente brutal: o da espetacularização da dor. A prisão de Elson Félix de Souza, o “Chaveirinho”, acusado de matar a esposa e balear a própria filha de apenas 1 ano e 5 meses, foi exibida quase como um reality show mórbido, cuidadosamente coreografado para alimentar os olhos ávidos por punição instantânea e vingança pública.
O crime é abominável. Nenhuma palavra pode suavizar ou relativizar a violência feminicida cometida.
Mas o que dizer de uma sociedade que, diante da barbárie, responde com sua própria forma de primitivismo? As imagens da prisão e do preso levado em carro aberto, revelam um espetáculo indigesto. Algemado, cercado, filmado, exibido — o acusado não era mais um homem prestes a enfrentar a justiça, mas um troféu de guerra em meio aos rosnados bárbaros dos espectadores das ruas e das redes sociais.
Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, já nos advertia: “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” O sofrimento da vítima? Transformado em cliques. A dor dos familiares? Substituída por comentários sedentos por sangue. A prisão do acusado? Um episódio do nosso eterno tribunal digital, onde cada um se torna juiz, jurado e carrasco.
A cultura do linchamento — físico ou moral — é um sintoma perigoso. Reivindicamos justiça, mas invocamos a selvageria. Clamamos por punição imediata, ignorando as engrenagens do Estado de Direito.
Quando a multidão se reúne, presente ou virtualmente, para apedrejar, com pedras ou mesmo com palavras, estamos muito mais próximos da lei de talião do que da Constituição. Entre os comentários inflamados, ressurge, disfarçada de indignação, a sedutora promessa da sharia — olho por olho, dente por dente — aplicada não por juízes, mas por mãos e também por dedos anônimos em teclados raivosos.
Não se trata de defender o indefensável. O que está em jogo é justamente a distinção entre civilização e barbárie. Somos mais humanos quando garantimos ao outro — mesmo ao mais brutal dos criminosos — os direitos fundamentais. É fácil exigir justiça quando ela serve aos nossos impulsos. Difícil é sustentá-la quando ela exige contenção, processo, escuta, institucionalidade.
No fundo, o que desejamos? Justiça ou vingança? O Estado democrático ou o tribunal da turba?
Que essa tragédia nos convide à reflexão. Que não nos deixemos seduzir pelo prazer perverso do espetáculo. Que resistamos ao chamado da selva, onde o mais forte impõe sua moral com o porrete nas mãos. Que escolhamos, ainda que com dor, o caminho da civilidade, da justiça institucional e da democracia.
Porque só assim, e não com gritos de fúria, evoluímos como sociedade.
Por Wanessa Meira