A maior movimentação militar dos Estados Unidos no Caribe em décadas reacendeu um velho fantasma: o da intervenção estadunidense na América Latina. Sob o pretexto de combater o narcotráfico, o governo Trump reposicionou navios e caças próximos à Venezuela e intensificou os ataques a barcos no mar do Caribe, ressuscitando, em plena crise da ordem internacional, o vocabulário clássico do poder imperial.
Oficialmente, Washington afirma que a operação mira “narco-terroristas” ligados ao regime de Nicolás Maduro. Mas, entre diplomatas e analistas latino-americanos, prevalece outra leitura: o objetivo real seria enfraquecer politicamente Caracas e testar a reação dos países da região. O gesto não é isolado, já que demonstrações de força militar costumam render dividendos políticos domésticos.
Entre 1898 e 1994, os Estados Unidos promoveram 41 intervenções militares na América Latina, incluindo ocupações no Haiti, na Nicarágua e na República Dominicana. Por trás do discurso civilizatório e da retórica da liberdade, o propósito era sempre o mesmo: proteger os interesses econômicos e estratégicos estadunidenses. O Caribe foi, por mais de um século, o laboratório do império.
Criada em 1823, a Doutrina Monroe nasceu como um aviso às potências europeias para que se mantivessem afastadas do hemisfério ocidental. No entanto, ao longo do tempo, transformou-se na justificativa central da hegemonia estadunidense sobre o continente. Durante o século XX, foi evocada para legitimar golpes, invasões e ditaduras. Hoje, ao ser retomada, a doutrina revela a nostalgia de um império que tenta reviver uma ordem que já não existe.
O historiador Alan McPherson observa que o atual cerco à Venezuela “vai além da Doutrina Monroe”. Se antes a intervenção era “defensiva”, agora é punitiva e ideológica. O inimigo deixou de ser o comunismo ou o colonialismo europeu e passou a ser qualquer governo que desafie a influência dos Estados Unidos em um mundo cada vez mais multipolar.
Trump encarna a velha máxima de “falar grosso e carregar um porrete”, mas num contexto radicalmente diferente. A credibilidade global dos EUA declina, a China amplia sua influência econômica e a legitimidade do uso unilateral da força está em ruínas. Cada movimento militar no Caribe soa menos como demonstração de autoridade e mais como intervencionismo e reflexo de ansiedade imperial.
As semelhanças com o passado são inquietantes. Em 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá para capturar Manuel Noriega, sob a acusação de narcotráfico. Trump revive o mesmo discurso ao rotular Maduro de “narco-terrorista”. Mas há diferenças cruciais: a Venezuela é doze vezes maior, possui 100 mil militares ativos e o apoio político e tecnológico de Rússia, China, Cuba e Irã. Uma operação dessa magnitude teria altíssimo custo político e geoestratégico — tanto para a região quanto para a liderança estadunidense já em crise.
Em resposta, o governo venezuelano mobilizou 4,5 milhões de pessoas e reforçou suas fronteiras. Mísseis russos, drones iranianos e assessores cubanos compõem uma rede de dissuasão simbólica, mas eficaz em termos políticos. A retórica da resistência anti-imperialista fortalece Maduro internamente e transforma o confronto em um ato de sobrevivência nacional. Paradoxalmente, pressionar militarmente um país em colapso tende a consolidar o regime, não a enfraquecê-lo.
Enquanto isso, a crise humanitária se agrava, o nacionalismo se intensifica e a América Latina se distancia de Washington. Líderes como Lula (Brasil) e Gustavo Petro (Colômbia) já advertiram: Se cada país se julgar no direito de invadir outro em nome da ordem, a soberania deixa de existir. O risco político para os EUA é o isolamento dentro do próprio hemisfério.
O episódio expõe um impasse maior: a erosão da ordem liberal construída após 1945. As potências ocidentais já não controlam sozinhas o sistema internacional. China e Rússia ampliam sua presença em regiões antes monopolizadas pelos Estados Unidos, e a ascensão do BRICS, com a perspectiva de uma nova moeda global, ameaça diretamente a hegemonia cambial do dólar.
O Caribe, outrora quintal estratégico de Washington, tornou-se hoje um campo de disputas multipolares. A política externa de Trump — e de boa parte do establishment americano — é cada vez mais performática, guiada por gestos de poder destinados mais à plateia interna do que à eficácia geopolítica. Mas há riscos profundos nessa teatralização: uma escalada militar mal calculada poderia repetir o trauma do Iraque e corroer de vez a imagem dos Estados Unidos como “força moral” do Ocidente.
O império ainda detém poder, mas perde legitimidade. Os Estados Unidos seguem influentes, mas já não incontestáveis. Buscam cercar-se de governos dóceis e conter a presença de potências rivais, tentando preservar uma hegemonia que se desmancha a cada nova intervenção.
Mas o mundo de 2025 é outro. A América Latina não aceita mais o papel de quintal. A China amplia investimentos, a Rússia oferece suporte político e militar, e novos polos de poder emergem no Sul Global.
O que a Doutrina Monroe já foi — um princípio de domínio — hoje se revela apenas como a lembrança de um império em busca de reafirmação.
Ricardo Medeiros