Preta Gil nunca se limitou à música. Cantora, atriz, apresentadora, empresária e, acima de tudo, ativista, ela transformou sua própria existência em símbolo de resistência contra os preconceitos de raça, corpo e sexualidade. Preta, que faleceu neste domingo (20), aos 50 anos, deixa um legado que extrapola os holofotes — um legado profundamente político, afetivo e transformador.
Filha de Gilberto Gil com Sandra Gadelha, cresceu imersa na efervescência cultural da MPB, convivendo com nomes como Caetano Veloso e Gal Costa. Mas não foi a herança artística que a definiu: foi sua coragem de ser inteira num país acostumado a enquadrar — especialmente mulheres negras e gordas — em moldes estreitos.
Ao lançar o álbum Prêt-à-Porter, em 2003, Preta já deixava claro que viria para romper convenções. Mesclando samba, funk e pop, seu trabalho foi criticado por muitos e amado por outros tantos. Mas ela não recuou. Criou o Bloco da Preta, um dos maiores do carnaval carioca, e tornou-se figura cativa da folia popular. A irreverência era seu grito de liberdade — dançar, cantar, ocupar a rua, o palco e o corpo.
Mais do que música, Preta usou sua visibilidade para causas urgentes: denunciou gordofobia, combateu o racismo, celebrou a pluralidade dos corpos e afetos, e não recuou diante do conservadorismo que a tentava silenciar. Declaradamente bissexual/pansexual, falava sem pudor sobre amor, prazer, liberdade e aceitação. Em um país marcado por violências estruturais, sua fala pública foi muitas vezes uma afronta — e, ao mesmo tempo, uma acolhida.
A empresária também foi militante. Criou a Mynd, agência focada em diversidade e influência digital, que impulsionou artistas e criadores fora dos padrões hegemônicos da publicidade. O Bazar da Preta, evento beneficente que promovia arrecadações para comunidades carentes, era outro exemplo de sua atuação social concreta.
Nos últimos anos de vida, mesmo em meio a uma árdua batalha contra o câncer de intestino, Preta seguiu ativa nas redes, nos bastidores e nos palcos que podia pisar. Não romantizou a doença, mas também não se entregou ao silêncio. Transformou sua luta em conteúdo, esperança e informação, ampliando debates sobre saúde pública e acolhimento.
A morte de Preta Gil não encerra sua trajetória. Ela plantou sementes que seguem germinando: nas mulheres que ousam existir sem pedir licença, nas pessoas gordas que exigem visibilidade, nos corpos negros que recusam apagamentos e nas vozes dissidentes que aprenderam a dizer “eu sou” — sem medo, sem vergonha, com orgulho.
Sua trajetória é prova de que o corpo é político. E Preta, com seu corpo inteiro e sua alma em festa, fez da arte um ato de amor e desobediência.