Por Marcelo Negreiros – Leia58.blog
Em uma eleição, todos os candidatos deveriam partir de uma mesma linha de largada. Na prática, porém, a realidade costuma ser bem diferente. Em Patos, no Sertão da Paraíba, o cenário eleitoral coloca lado a lado estruturas políticas e econômicas de dimensões muito distintas, revelando um dos grandes desafios da democracia brasileira: a desigualdade de condições enfrentada por quem decide disputar uma eleição sem máquinas políticas, grandes recursos financeiros ou estruturas partidárias robustas.
De um lado, está o deputado federal Hugo Motta (Republicanos), patoense e presidente da Câmara dos Deputados, integrante de um grupo políticotradicional da região e candidato à reeleição. Do outro, está o jornalista, radialista e servidor público municipal Jozivan Antero, da Unidade Popular (UP), que chega à sua sexta candidatura eleitoral tentando conquistar uma vaga na Assembleia Legislativa da Paraíba.
São duas realidades completamente diferentes.
Hugo Motta pertence a uma família que há décadas ocupa espaço de destaque na política paraibana. A trajetória dos Motta/Wanderley envolve gerações de prefeitos, deputados e lideranças políticas, além de uma extensa rede de alianças e apoios construída ao longo dos anos.
A dimensão dessa estrutura contrasta com a realidade de Jozivan Antero, que decidiu transformar a própria candidatura em uma espécie de caminhada de resistência política.
Seis eleições e a persistência de quem não desistiu
Jozivan não é um estreante.
Esta é a sexta vez que coloca seu nome à disposição dos eleitores. Foram quatro candidaturas ao cargo de vereador, uma disputa para deputado federal e, agora, a tentativa de chegar à Assembleia Legislativa da Paraíba.
Sua principal ferramenta, entretanto, continua sendo a palavra.
Jornalista e radialista, Jozivan construiu ao longo dos anos uma atuação ligada à comunicação e ao debate político. Seu programa de rádio, segundo as informações apresentadas, precisou ser interrompido em razão das regras eleitorais.
Sem a estrutura dos grandes partidos e sem acesso significativo aos meios tradicionais de propaganda, a campanha ganhou uma imagem que chama atenção pelas ruas de Patos: uma bicicleta puxando um pequeno reboque equipado com uma caixa de som.
É com esse equipamento simples que o candidato percorre a cidade levando sua mensagem.
A cena, por si só, traduz o tamanho do desafio.
Uma bicicleta contra estruturas milionárias
Enquanto algumas campanhas contam com equipes numerosas, veículos, material de divulgação, recursos financeiros e forte presença nas redes sociais, Jozivan aposta no contato direto e na contribuição de simpatizantes.
O próprio candidato resume sua principal dificuldade:
“O maior desafio é a desigualdade de direitos. Sem tempo de rádio, de TV e tendo o menor recurso do fundo eleitoral.”
A reclamação coloca no centro da discussão uma questão que ultrapassa a candidatura individual: até que ponto candidatos com pouca estrutura conseguem competir em igualdade de condições com aqueles que pertencem a grupos políticos consolidados?
A Unidade Popular, partido pelo qual Jozivan disputa a eleição, possui uma parcela muito pequena dos recursos do fundo eleitoral, segundo os dados apresentados. O partido recebe aproximadamente 0,06% do Fundo Eleitoral, realidade que restringe drasticamente a capacidade de financiamento de uma campanha competitiva.
E é justamente nesse ambiente que o candidato tenta construir sua caminhada.
O calor do Sertão também faz parte da campanha
Patos é uma cidade relativamente plana, característica que ajuda quem escolhe a bicicleta como meio de transporte.
Mas existe outro adversário nessa caminhada: o calor sertanejo.
Sair pelas ruas logo nas primeiras horas do dia, quando as temperaturas já podem superar os 20 graus, e continuar a atividade sob temperaturas que chegam à casa dos 36 graus ou mais não é tarefa simples.
Mesmo assim, Jozivan continua pedalando.
A bicicleta, nesse caso, não é apenas um meio de transporte. É também o símbolo de uma campanha que pretende demonstrar que uma candidatura pode existir mesmo quando os recursos são escassos.
Enquanto os grandes grupos políticos se movimentam com estruturas que envolvem décadas de construção de poder, Jozivan tenta avançar metro a metro, rua a rua, conversa a conversa.
Duas faces da política em Patos
A comparação entre Hugo Motta e Jozivan Antero não precisa ser encarada apenas como uma disputa entre dois candidatos.
Ela também pode ser compreendida como um retrato de duas formas de fazer política.
De um lado, uma estrutura familiar consolidada ao longo de gerações, com presença institucional e uma extensa rede de alianças.
De outro, um candidato que depende essencialmente de sua capacidade de comunicação, da disposição física para percorrer as ruas e da contribuição daqueles que acreditam em sua proposta.
É importante ressaltar que possuir estrutura política ou familiar não constitui, por si só, uma irregularidade. Da mesma maneira, uma candidatura com poucos recursos não significa automaticamente que ela represente melhor ou pior o eleitor.
O ponto central está na desigualdade de condições de competição.
A candidatura como ato de resistência
Para Jozivan Antero, entretanto, talvez o principal objetivo seja justamente mostrar que existe espaço para uma candidatura construída fora dos grandes círculos de poder.
Sua insistência em disputar novamente uma eleição, depois de cinco experiências anteriores, revela uma característica que dificilmente pode ser ignorada: persistência.
Ele poderia simplesmente ter desistido.
Não desistiu.
Poderia ter abandonado a política eleitoral diante da falta de recursos.
Também não abandonou.
Escolheu a bicicleta, o reboque e a caixa de som.
Escolheu continuar conversando com as pessoas.
Escolheu disputar.
E é justamente aí que sua candidatura ganha uma dimensão que vai além dos números de uma pesquisa ou da quantidade de material espalhado pelas ruas.
Entre o jatinho e a bicicleta, uma reflexão sobre democracia
A imagem do deputado que circula entre Brasília e Patos dentro da estrutura institucional do cargo e a imagem do candidato que percorre as ruas de bicicleta produzem um contraste inevitável.
Não se trata de afirmar que um modelo seja correto e o outro, errado.
Trata-se de observar que a política brasileira ainda é marcada por profundas diferenças de estrutura entre os concorrentes.
De um lado, o poder institucional, a tradição familiar, as alianças e os recursos.
Do outro, a bicicleta, a caixa de som, a voz e a disposição para continuar tentando.
Entre esses dois extremos está o eleitor.
É ele quem, no final das contas, decide se prefere a continuidade das estruturas tradicionais ou se deseja abrir espaço para novas vozes.
Jozivan Antero sabe que sua caminhada é difícil. Talvez seja justamente por isso que continue pedalando.
Porque, em uma democracia, a força de uma candidatura não deveria ser medida apenas pelo tamanho de sua estrutura, mas também pela capacidade de convencer o eleitor de que existe uma alternativa.
E, pelas ruas de Patos, enquanto muitos candidatos contam os votos que esperam conquistar, Jozivan conta os quilômetros que ainda precisa percorrer.
A bicicleta segue. A campanha também.