O Ministério Público Federal na Paraíba denunciou dez pessoas suspeitas de integrar a chamada “máfia dos concursos”, acusada de fraudar um certame da Polícia Federal realizado em 2025. A denúncia, divulgada nesta terça-feira (28), aponta que o esquema criminoso tinha base em Patos, no Sertão paraibano, e atuação em pelo menos três estados: Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
De acordo com o MPF, o grupo operava com estrutura organizada e divisão de tarefas, envolvendo gestores, intermediários, responsáveis pela resolução das provas, executores da extração de imagens e beneficiários diretos das fraudes. O esquema tinha lógica comercial e cobrava valores proporcionais aos salários dos cargos pretendidos, podendo ultrapassar R$ 280 mil por candidato.
As investigações identificaram que, no caso específico do concurso da Polícia Federal, o foco era o cargo de delegado, com o objetivo de beneficiar indiretamente um dos denunciados. Entre as provas reunidas estão movimentações financeiras consideradas atípicas e trocas de mensagens que indicam a participação dos envolvidos.
O caso é um desdobramento de apurações mais amplas que já haviam revelado a existência de um núcleo do esquema sediado em Patos. Em uma dessas investigações, o delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, chegou a ser alvo de buscas e apreensões e foi afastado do cargo, embora não tenha sido denunciado neste processo específico.
Origem do esquema em Patos
As suspeitas sobre o grupo ganharam força em outubro de 2025, quando a Polícia Federal passou a investigar uma família de Patos apontada como peça central no esquema de fraudes em concursos públicos. A apuração revelou indícios de que os crimes vinham sendo praticados há mais de uma década.
Um dos principais elementos que chamaram atenção foi a análise dos gabaritos do Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024, que identificou candidatos da mesma família com padrões idênticos de respostas, inclusive nos erros, e aprovados justamente nos cargos com maiores salários.
Segundo a Polícia Federal, o esquema era liderado pelo ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, expulso da corporação em 2021 e já condenado por tortura de um adolescente dentro de uma viatura. Ele teria feito a prova do CNU apenas para demonstrar aos clientes que o sistema de fraude funcionava. Wanderlan chegou a ser aprovado para o cargo de auditor fiscal do trabalho, com salário de cerca de R$ 22 mil, mas não participou do curso de formação.
Ainda conforme as investigações, ele contava com o apoio direto de familiares, incluindo os irmãos Valmir Limeira de Sousa e Antônio Limeira das Neves, além da cunhada Geórgia de Oliveira Neves e da sobrinha Larissa de Oliveira Neves, que desempenhavam diferentes funções dentro da organização.
Wanderlan Limeira morreu em dezembro de 2025, em Patos, após ser internado no Hospital Regional. De acordo com a unidade de saúde, ele sofria de problemas de coagulação, e as causas da morte foram registradas como choque não especificado, choque hipovolêmico e coagulopatia.
Na denúncia atual, o MPF aponta que os investigados podem responder por organização criminosa, fraude em certame público, lavagem de dinheiro, corrupção, falsidade documental e embaraço à investigação.
Dois dos denunciados chegaram a firmar acordos de colaboração premiada, mas o Ministério Público pediu a revogação dos benefícios, alegando descumprimento das condições. Segundo o órgão, ambos omitiram informações relevantes e continuaram envolvidos em práticas ilícitas mesmo após os acordos.