Em sociedades muito controladas, ou muito acomodadas, a realidade pode ser ignorada por algum tempo. Mas dificilmente desaparece. A literatura distópica explorou bem esse fenômeno, especialmente no clássico Nineteen Eighty-Four (1984), de George Orwell. No romance, o personagem Winston Smith vive em um sistema onde a narrativa oficial tenta substituir os fatos. A ordem parece perfeita, o governo diz que tudo funciona e as contradições são tratadas como meros detalhes. Até que, em determinado momento, os fatos se impõem.
Durante anos, a política de Patos pareceu funcionar em lógica parecida, guardadas as proporções, claro. Problemas conhecidos da cidade seguiram cursos silenciosos: denúncias de corrupção, obras paradas, falta de medicamentos, ausência de saneamento básico em diversas áreas e até a crescente população de cães abandonados. Nada disso parecia capaz de produzir grandes abalos na harmonia entre a Câmara e o Executivo.
Mas, então, vieram os buracos.
Não exatamente os buracos em si, esses já existiam, mas a quantidade deles, espalhados pelas ruas após as últimas chuvas. Buracos grandes demais para a narrativa oficial. Buracos que aparecem em vídeos, em reclamações de moradores e até em memes que circulam pela cidade com a velocidade das redes sociais.
Na obra literária, o regime controla a percepção do real por meio do Ministry of Truth, onde fatos históricos são continuamente alterados para que a versão oficial do poder pareça sempre correta. Proporcionalmente, algo semelhante ocorre no ambiente digital da política contemporânea local: nas redes sociais, a prefeitura de Patos frequentemente divulga vídeos institucionais que apresentam uma cidade ordenada, dinâmica e em pleno funcionamento, em roteiros cuidadosamente construídos para moldar a percepção pública. O problema é que, como na própria lógica descrita por Orwell, essa narrativa encontra limites quando a realidade cotidiana se mostra. O sucesso do vídeo que viralizou ironizando os buracos da cidade rompe justamente esse controle simbólico: ao circular amplamente, ele contrapõe à estética otimista da comunicação oficial uma imagem crua das ruas, lembrando que, fora da tela, Patos e seus incômodos problemas continuam existindo.
Foi então que o buraco aumentou e finalmente chegou ao plenário da Câmara Municipal.
Na sessão da última terça-feira (10), os vereadores começaram a falar do problema. Com cuidado, é verdade, mas falaram. E estas falas revelaram duas curiosidades: ao mesmo tempo em que surgiram as críticas, também apareceram a consciência de que a Câmara precisa assumir um papel mais ativo e que uma das falas mais enfáticas, não parecia demonstrar indignação propriamente com os buracos, mas com outra consequência deles: o constrangimento público.
Um dos vereadores relatou, em tom possivelmente de aborrecimento, que um criador de conteúdo local estaria ganhando muitos seguidores — e até dinheiro — ao publicar um vídeo humorístico sobre os buracos da cidade. O parlamentar afirmou que havia sido “constrangido” e lamentou que a Câmara “não esteja bem vista” diante da situação. Também demonstrou incômodo com o fato de que os memes estariam utilizando a imagem do prefeito Nabor Wanderley.
Ou seja, em meio às crateras nas ruas, o que pareceu provocar maior desconforto foi o impacto delas no ambiente digital.
Outro vereador descreveu episódios concretos do impacto da situação nas ruas. Relatou que recebeu vídeos de carros quebrados, veículos atolados e até de um motociclista que teria caído em um buraco no Bairro dos Estados. Um motorista de aplicativo, segundo ele, teria confessado que evita aceitar corridas para a região para não correr o risco de danificar o carro.
De repente, o cotidiano caótico da cidade parece ter invadido o debate político, que revelou nas uma frustração com a resposta administrativa da gestão Nabor. Um parlamentar afirmou que percorreu vários bairros como Novo Horizonte, Luar de Angelita, Jatobá e Monte Castelo e não encontrou equipes trabalhando nas vias.
Mesmo assim, as críticas vieram acompanhadas de cautela. As falas no plenário revelaram algo próximo do que Orwell chamaria de duplipensamento: a capacidade de criticar e, ao mesmo tempo, reafirmar lealdade ao sistema criticado. Isso ficou visível nos momentos em que alguns vereadores insistiram que as cobranças serviriam para “ajudar a gestão”, na tentativa de transformar a crítica em gesto de colaboração política.
Em Nineteen Eighty-Four, o personagem Winston Smith descobre que o poder teme, acima de tudo, quando a realidade começa a escapar da narrativa oficial. Não necessariamente porque os fatos sejam novos, mas porque se tornam visíveis demais para serem ignorados.
No caso da Câmara de Patos, os buracos nas ruas parecem ter provocado um efeito semelhante, não como ruptura ideológica, mas como reconhecimento público de um problema que já vinha sendo sentido pela população.
A questão que fica é se esse episódio representa apenas um momento de desconforto diante da repercussão pública ou se marca algo mais relevante: a redescoberta de que a função de um parlamento municipal não é apenas acompanhar o poder executivo, mas também reagir quando a realidade das ruas começa a falar mais alto que o silêncio institucional.
A diferença entre ficção e política, evidentemente, é que na vida real não existem sistemas perfeitos nem narrativas absolutas. Existem administrações, decisões, prioridades e responsabilidades compartilhadas.
Porque, no fim das contas, a cidade real, aquela que os moradores percorrem todos os dias, sempre acaba falando mais alto do que qualquer discurso e, entre buracos e o súbito amor pela fiscalização que aparentemente tomou a Casa Juvenal Lúcio de Sousa, a falta de infraestrutura urbana em Patos obrigou a política a olhar para o chão.
Wanessa Meira – Polêmica Patos