Patos sob as águas: tragédia anunciada e responsabilidade compartilhada

Patos não precisa de mais discursos após a chuva. Precisa de ação antes da próxima.



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Na noite da última sexta-feira (27), a cidade de Patos, no Sertão paraibano, foi atingida por uma chuva intensa que provocou inundações em praticamente todos os bairros. Ruas transformaram-se em rios improvisados, carros e motocicletas foram arrastados, lojas tiveram estoques comprometidos e residências foram invadidas pela água. Os canais dos bairros Morro e Frango transbordaram, afetando com maior severidade justamente as comunidades mais vulneráveis.

Embora o impacto tenha sido chocante, o episódio está longe de ser imprevisível. Trata-se de uma tragédia anunciada, resultado direto de um modelo de crescimento urbano desordenado, de décadas de omissão administrativa e da ausência de planejamento técnico consistente.

Patos cresceu. Mas cresceu como?

A expansão urbana ocorreu sem a devida consolidação de um plano diretor eficaz, sem controle rigoroso do uso e ocupação do solo e sem investimentos proporcionais em infraestrutura de drenagem pluvial. O asfaltamento de ruas, muitas vezes executado sem critérios técnicos adequados de declividade, permeabilidade e escoamento superficial, agravou o problema ao impermeabilizar o solo e acelerar o volume de água direcionado para áreas mais baixas.

A ausência ou precariedade da rede de esgotamento sanitário também contribui para o colapso em períodos chuvosos. Sistemas antigos e subdimensionados não suportam grandes volumes, resultando em refluxo, extravasamento e contaminação. Soma-se a isso o estado do Rio Espinharas, tomado por vegetação e com manutenção insuficiente, o que compromete sua capacidade de vazão em eventos extremos.

Não se trata apenas de uma questão climática, embora ela exista.

O aquecimento global tem intensificado eventos extremos em diversas regiões do planeta. Chuvas mais concentradas, volumosas e rápidas deixaram de ser exceção. O que antes era considerado atípico passa a compor uma nova normalidade climática. No entanto, cidades resilientes se preparam para isso com planejamento urbano, macrodrenagem, parques lineares, controle de ocupação em áreas de risco e políticas ambientais permanentes.

Patos, infelizmente, não demonstrou essa preparação.

A responsabilidade primeira recai sobre o poder público, que falhou ao longo dos anos em implementar políticas estruturantes e sustentáveis. Obras pontuais e paliativas não substituem planejamento estratégico de longo prazo. A gestão urbana exige competência técnica, visão integrada e compromisso contínuo, não apenas discursos e ações emergenciais após cada crise.

Contudo, é preciso reconhecer que há também uma dimensão coletiva do problema. A população, em grande parte, permanece alheia ao debate sobre plano diretor, zoneamento, licenciamento ambiental e fiscalização de obras. A “dormência cívica” contribui para a perpetuação de administrações pouco eficientes. Quando o debate público se limita a questões superficiais e imediatistas, temas estruturais ficam relegados ao segundo plano, pelo menos até que a água bata à porta.

A enchente desta sexta-feira não foi apenas um evento meteorológico. Foi a materialização visível de anos de negligência, improviso e ausência de consciência ambiental. Os mais pobres pagam o preço mais alto, como sempre: moram em áreas mais suscetíveis, possuem menor capacidade de recuperação financeira e dependem mais diretamente de serviços públicos que falham justamente quando são mais necessários.

A chamada “pequena grande” Patos precisa decidir que cidade deseja ser nas próximas décadas. Continuará expandindo-se sem direção, acumulando riscos e prejuízos, ou assumirá um novo paradigma de desenvolvimento urbano sustentável?

Planejamento não é luxo. Infraestrutura não é favor. Manutenção preventiva não é opcional. São requisitos básicos de gestão responsável.

Se as chuvas tempestuosas vieram para ficar, e tudo indica que sim, o despreparo não pode permanecer. Caso contrário, o que hoje chamamos de surpresa será apenas rotina. E a cada nova enchente, repetiremos o mesmo roteiro: indignação momentânea, promessas públicas e, depois, silêncio até o próximo alagamento.

Patos não precisa de mais discursos após a chuva. Precisa de ação antes da próxima.

Wanessa Meira – Polêmica Patos