Carnabor e Solfoliol®: posologia pré-carnavalesca para uma Patos sem remédio

Diante da escassez de medicamentos na farmácia básica, Patos parece ter encontrado um substituto terapêutico oficial



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Diante da escassez de medicamentos na farmácia básica, Patos parece ter encontrado um substituto terapêutico oficial: Solfoliol®, um composto carnavalesco de uso coletivo, administrado por trio elétrico e potencializado por decibéis elevados. A fórmula é simples, barata no discurso e cara na prática: música alta, euforia programada e uma boa dose de esquecimento temporário.

O princípio ativo do Solfoliol® atende pelo nome de Sol Folia, a prévia carnavalesca promovida pela Prefeitura no próximo fim de semana.

Enquanto isso, cidadãos relatam que, desde meados de novembro, a farmácia básica municipal enfrenta faltas recorrentes de medicamentos, inclusive aqueles destinados a demandas sensíveis, como ansiolíticos. As queixas se repetem em filas, redes sociais, rádios e conversas de rua.

Posologia recomendada

Segundo a lógica administrativa em vigor, o Solfoliol® deve ser administrado em duas doses concentradas, preferencialmente neste final de semana, 7 e 8 de fevereiro, com reforço de trio elétrico, artistas de renome nacional e apelo popular e grande aglomeração. A recomendação é clara: quanto maior o volume do som, menor a chance de o paciente, no caso, o cidadão, lembrar da prateleira vazia da farmácia básica ou de qualquer outra prioridade do município.

Indicações

O Solfoliol® é indicado para:

  • Reduzir temporariamente a percepção de problemas estruturais
  • Provocar euforia coletiva de curta duração
  • Induzir uma conveniente suspensão crítica da realidade

O efeito do Solfoliol® é rápido. Em poucas horas, o paciente dança, canta e esquece. A cidade vibra, as redes sociais se enchem de vídeos e a crítica dá lugar ao refrão. Trata-se de um potente calmante social, eficiente para anestesiar questionamentos e suavizar tensões, ainda que apenas por um curto intervalo.

Efeitos colaterais

Como todo medicamento mal utilizado, o Solfoliol® apresenta efeito rebote. Passada a euforia, desmontado o palco e silenciado o trio, os sintomas retornam, muitas vezes com maior intensidade. O cidadão acorda, procura a farmácia básica e encontra o mesmo cenário: espera, frustração e ausência de respostas.

Há também relatos de:

  • Amnésia administrativa temporária
  • Sensação de normalidade artificial
  • Dependência crônica de eventos para compensar falhas estruturais

Contraindicações

O Solfoliol® não é recomendado para:

  • Substituir políticas públicas permanentes
  • Tratar demandas essenciais de saúde
  • Resolver problemas que exigem planejamento, gestão e prioridade

Não se discute aqui a legalidade do evento nem o direito da população à festa. O debate é sobre prioridade administrativa.

Assim, o “Carnabor” seguirá seu curso colorido, barulhento e bem iluminado, enquanto problemas estruturais permanecem fora do circuito oficial. A gestão parece apostar que, entre um evento e outro, dá para administrar a cidade à base de entretenimento, como se festa fosse política pública e som alto substituísse planejamento e resolução.

No fim, Patos vive um contraste difícil de ignorar: o brilho do Sol Folia de um lado; a sombra da carência em serviços essenciais do outro. O Solfoliol® até pode aliviar momentaneamente os sintomas, mas não trata a causa. E toda cidade sabe, mesmo que prefira dançar para esquecer, que remédio paliativo não cura doença crônica.

Wanessa Meira – Polêmica Patos