Ao pedir a redução da pena lendo livros, Bolsonaro mostra que, para ele, leitura só é útil quando passa a valer dias de liberdade

A comédia de um ex-presidente de extrema direita pedindo redução de pena por meio de livros que abrangem temas que criticam exatamente as bases do seu discurso político torna cena tão absurdamente memorável quanto qualquer obra de ficção. 



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Nesta quinta-feira (8) a defesa de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, protocolou um pedido formal ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, solicitando autorização para que o ex-presidente possa reduzir sua pena lendo livros. A ideia é aderir ao programa de remição de pena pela leitura, que permite abater quatro dias de pena por obra lida e avaliada mediante relatório — uma prática prevista na Lei de Execução Penal e regulamentada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). 

Já aí a história é digna de um roteiro de sátira: um político cuja carreira foi marcada por discursos contra a educação formal, contra o que chamava de “doutrinação ideológica” em escolas e universidades e pela defesa de regimes autoritários agora recorre ao poder salvador da literatura para diminuir tempo de prisão. A lista de livros que poderiam ajudá-lo inclui títulos como Democracia (sobre princípios cívicos), Crime e Castigo (sobre culpa e responsabilidade moral) e Ainda Estou Aqui (sobre as marcas da ditadura militar no Brasil), ironicamente, obras que tratam exatamente dos temas que seu discurso político sempre desprezou ou relativizou. 

A contradição é quase poética: um líder de extrema direita, associado a exaltações da ditadura militar e à minimização dos riscos do autoritarismo, agora quer sobreviver ao cárcere lendo justamente textos que criticam o extremismo e celebram a democracia.

Se for aprovado, Bolsonaro terá de escrever resenhas dessas leituras, que serão avaliadas por comissões especializadas antes de se transformarem em dias a menos de prisão. Vale lembrar que esse programa de remição não aceita passatempos como caça-palavras ou enigmas lúdicos. Aliás, um episódio anterior registrado em vídeo mostrou que, quando seu filho Jair Renan foi questionado sobre quais livros ele havia levado para o pai na prisão, ele respondeu que eram “um caça-palavras”, algo que, no mínimo, sugere que a compreensão real de textos densos pode não ser um forte da família. 

Isso traz à mente uma analogia quase surreal: Bolsonaro oferecendo sua mente (ou aquilo que deveria ser) em troca de uns dias a menos de cadeia, em uma espécie de “venda simbólica da alma” para escapar de sua própria criação de crises jurídicas. É a própria metáfora de Faust em versão tropical: o protagonista troca seu tempo (e um pouco de orgulho) por sabedoria, ainda que não necessariamente pela compreensão ou prática dela.

Do ponto de vista político e cultural, o pedido tem um sabor agridoce: é ao mesmo tempo um reconhecimento tardio da importância da educação e uma ironia pungente diante das declarações públicas anteriores desse mesmo político contra intelectuais, educação crítica e estudos sobre ditadura e direitos humanos.

A pergunta que fica no ar é: será que Bolsonaro realmente irá se aprofundar em um Dostoiévski ou em um livro sobre democracia, ou veremos resenhas redigidas com o mesmo empenho com que ele lidava com fatos históricos desconfortáveis para ele?

De qualquer forma, esta comédia que é a de um ex-presidente de extrema direita pedindo redução de pena por meio de livros que abrangem temas que criticam exatamente as bases do seu discurso político, torna a cena tão absurdamente memorável quanto qualquer obra de ficção. 

Wanessa Meira – Polêmica Patos