A redação do Polêmica recebeu um texto escrito pelo professor Espedito Filho, que leciona sociologia na rede particular de ensino na cidade de Patos. Espedito traz sua visão em decorrência do aumento dos crimes de feminicídio no Brasil.
Veja na íntegra:
FEMINICÍDIO NO BRASIL: O PODER QUE MATA ANTES DO TIRO
Por Espedito Filho – Professor de Sociologia
O Brasil amanhece, dia após dia, com novas estatísticas que mancham o chão de um país supostamente protegido por leis como a Maria da Penha, medidas protetivas e protocolos de segurança. Mas, mesmo rodeadas de normas, milhares de mulheres continuam sendo assassinadas — e mais cruel que a morte é a lógica que a antecede. Vivemos em uma sociedade que, por conveniência ou covardia, tenta justificar o injustificável: “surto”, “patologia”, “perda momentânea do controle”. Enquanto se individualiza o crime, perde-se de vista que o feminicídio é estrutural, enraizado em camadas quase invisíveis que se infiltram no cotidiano como poeira que ninguém percebe, mas que adoece tudo.
Michel Foucault já nos ensinava que o poder não está apenas nos grandes aparelhos do Estado, mas circula de forma microscópica — uma microfísica do poder que opera nos gestos sutis, nos olhares que julgam, nas piadas que diminuem, nos discursos religiosos que silenciam, nas estruturas políticas que naturalizam a desigualdade. O feminicídio não começa no gatilho, nem na facada; ele é elaborado muito antes, numa longa cadeia de violências simbólicas, morais e psicológicas que se acumulam até o corpo não suportar mais. Cada comentário machista “inofensivo”, cada sorriso cúmplice diante de um insulto, cada desculpa forjada para justificar ciúme, controle e submissão — tudo isso constitui o laboratório diário onde a violência se reproduz. O feminicídio é o ápice de um processo que se constrói lentamente, gota a gota, pelos sistemas sociais que insistem em preservar o machismo como hábito, tradição e até virtude.
Pierre Bourdieu nos ajuda a enxergar aquilo que muitas vezes preferimos ignorar: o poder simbólico, transmitido como herança quase genética, educa e molda comportamentos. Ele nasce na família, atravessa a escola, habita a literatura, contamina a política e hoje se espalha de forma avassaladora pelas redes sociais, onde discursos de ódio são consumidos como entretenimento. Quando a misoginia se torna conteúdo e o desrespeito vira tendência, não é surpresa que tantos homens se sintam autorizados a controlar, agredir e, por fim, matar. Num país em que mulheres continuam sendo minoria em acessibilidade, representatividade e direitos efetivos, elas acabam se tornando as vítimas mais expostas aos efeitos desse poder que opera silenciosamente, mas destrói vidas com brutalidade.
Enquanto a sociedade não rearranjar seus próprios fundamentos, nada muda — nem com leis, nem com estatísticas, nem com lágrimas. É preciso romper o ciclo, desnaturalizar o que foi ensinado como destino, desmontar a cultura que insiste em transformar mulheres em alvo. A cada hora que passa, outra mulher grita. Algumas sobrevivem. Outras não. Mas todas carregam no corpo e na alma as marcas de um país que ainda precisa aprender que respeito não se negocia, não se discute, não se adia: se pratica.
E que este texto sirva como alerta, como denúncia, mas também como compromisso — porque o feminicídio não é uma tragédia individual. É o espelho do que ainda somos. E, se não tivermos coragem de quebrá-lo, continuaremos repetindo a mesma história, apenas com novos nomes nas manchetes da manhã.
Edição: Jozivan Antero – Polêmica Patos