Em pleno ano de 2025, em pleno estado de direito, ainda ouvimos histórias que deveriam pertencer ao passado e que, no entanto, se repetem, assustadoras e contínuas. Em particular, o caso de Natália Pinheiro, registrado no último fim de semana aqui em Patos, revela como o machismo estrutural se alia à omissão institucional para produzir violência material contra mulheres que, mesmo com medidas protetivas, seguem vulneráveis.
Natália é vítima e, ao mesmo tempo, símbolo de quantas dezenas de mulheres vivem sob o risco, com o Estado assistindo de longe. Na noite do último sábado (25), o carro da família de Natália foi incendiado no bairro dos Estados, em Patos. O principal suspeito? O ex-marido, que se recusa a aceitar o fim da relação.
Ela revelou em vídeo nas redes sociais seu desespero: havia denunciado, havia registrado a ocorrência, estava sob ameaça, mas a autoridade competente, a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Patos (DEAM) estava fechada no fim de semana. A medida protetiva, que deveria ser escudo, mostrou-se frágil, letra morta.
Essa conjunção: agressor persistente + vítima vulnerável + rede de proteção falha = risco máximo. Segundo levantamento de 2024, 121 mulheres com medidas protetivas em vigor foram vítimas de feminicídio no Brasil.
No estado da Paraíba, os dados mostram um cenário alarmante: em 2024 foram 25 feminicídios registrados no ano inteiro. Entre janeiro e junho de 2025, já se contabilizavam 19 feminicídios: o segundo pior primeiro semestre dos últimos dez anos.
As denúncias via central “Ligue 180” cresceram 30,7 % no ano anterior, o que aponta um lado: mais mulheres ousam denunciar. Em contraponto, outro lado igualmente cruel: mesmo com mais denúncias, os assassinatos continuam.
Enquanto isso, redes sociais, a inquisição virtual caça as “bruxas” que ousam buscar seus direitos. É revoltante que, em pleno século XXI, convivamos com a narrativa de que “ela podia ter saído” ou “ela provocou”, como se fosse problema da vítima se proteger.
O que a vítima exige é que o Estado garanta a segurança que lhe é direito constitucional. Quando ele falha, o resultado é morte, ou quase-morte, ou trauma eterno.
Que medidas protetivas sejam realmente eficazes. Que delegacias especializadas funcionem 24 horas. Que as mulheres não vivam com medo, porque o medo é arma do agressor e da inércia institucional.
É inaceitável escolher qual violência doméstica vai ser atendida ou qual mulher merece ajuda. Cada caso negligenciado é um passo rumo à tragédia anunciada.
Se não dermos à proteção um sentido real, ela ficará no papel e mulheres continuarão pagando com suas vidas. Patos é microcosmo, mas reflete o Brasil. E basta olhar: o feminicídio não espera.
É hora de exigirmos ação verdadeira, não apenas discursos. E que nenhuma mulher fique sozinha nessa luta.
Wanessa Meira – Polêmica Patos