O funcionário público Carlos Ronaldo, conhecido por CR 10, que escreve uma coluna no site afontepb, escreveu sobre o caso de um jovem paciente psiquiátrico agredido ao ficar despido pelas ruas da cidade de Patos.
Leia a reflexão:
Em Patos, um jovem aparentemente com distúrbios mentais caminhou nu pelas ruas nesta quinta-feira (10). E o que fizeram? Filmagens. Gargalhadas. Postagens. Transformaram a dor em espetáculo, o sofrimento em “conteúdo”. Mas afinal, quem estava realmente nu? O rapaz, com sua alma dilacerada à mostra, ou a cidade, despida de compaixão, empatia e vergonha? Esse foi o verdadeiro nu de Patos.
Vivemos uma era em que muitos já se despiram, literalmente, de caráter e pudor. A nudez física já não escandaliza, porque o que verdadeiramente choca — ou deveria chocar — é a nudez moral, a pobreza espiritual e a ausência completa de humanidade. Para uma estatística considerável da sociedade, só resta mesmo tirar a roupa — porque a dignidade já foi embora há tempos.
Mas, eis aqui o paradoxo: “Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1 Coríntios 3:19). Os loucos, aos olhos humanos, são muitas vezes os sábios aos olhos de Deus. Talvez aquele jovem nu estivesse, em seu silêncio e desatino, protagonizando aquilo que muitos têm vontade de fazer, mas não têm coragem — despir-se das amarras, das aparências, das convenções hipócritas.
No entanto, não é do louco que quero falar. É da plateia. Dos “normais” que, diante de uma cena desumana, escolhem rir, filmar, postar — e nada fazer pra socorrer, amparar ou proteger a vítima. A ausência de reação, de socorro, de sensatez… isso, sim, é doença coletiva. Por pouco, um cidadão não linchou o rapaz. Mataria, sem nem se dar conta, um ser humano em sofrimento. Hoje, se machuca antes de ajudar, se humilha antes de compreender, se filma antes de agir. O digital desumanizou o real.
Como disse Ariano Suassuna: “Eu gosto é de doido, porque o doido só diz a verdade.” Mas a verdade anda incomodando tanto que até quem grita por socorro é cancelado. E os loucos viraram ameaça — não por serem loucos, mas por serem livres.
Esses que zombam, filmam e viralizam a dor alheia são os mais aprisionados de todos. Habitam suas bolhas digitais e morais porque têm pavor do espelho. Atacam o que é diferente, não por convicção — mas por covardia.
Talvez estejamos mesmo precisando de mais “doidos” autênticos — e de bem menos “sãos” de fachada. Porque, no fim das contas, o nu que mais deveria escandalizar não é o da carne… é o da alma
CR 10